Haverá algum vicio tão tenebroso
quando uma paixão convicta ou uma sedução explícita? Deverá haver se no
desvario do olhar lembrarmos de algo mais arrojado, que por ser pecado
permanecemos calados, ou se na tentativa de assumirmos as consequências somos
inconsequentes e de certa forma perdermos a certeza daquilo a que nos
predispomos, de uma forma paralela àquilo que somos. Certamente haverá algo
mais tenebroso mas em termos de prazer só isso nos poderá satisfazer, uma
paixão ou uma sedução. Uma paixão daquelas que de tanto ardume, não de uso mas
de costume, resfriamos o fervor com os choros avulsos e que atenuamos e
confirmamos a nossa euforia em versos proliferados, nascidos do acaso, na ânsia
que alguém nos ouça ou nos veja e que nos entenda. Uma sedução daquelas sem escrúpulos
em que derrapamos no silêncio, bem astutos, levados por toques ocultos, que de
tão precipitados nos excitam e nos incitam, somos genuinamente obrigados a nos
descompormos e arrecadamos suores, sussurros e apetites carnais. São vícios e têm
de ser tratados como tais, consumindo-os, porque se não somos viciados somos
melindrosos pois a paixão e a sedução mais não são que vícios por inflamar aos
quais estamos entregues e que por mais que não queiramos é algo a que não
escapamos.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Determinantemente saciado
Não posso deixar de exaltar a
chuva, seria desonesto da minha parte, que menosprezasse o desvario efervescente
dessa carinhosa simpatia que a natureza nos presenteia, para que as noites
sejam mais habilidosas e para que os dias sejam mais reconfortantes na hora de
assumir a minha ociosidade perante o mundo.
O vento que se altiva e que me afronta torna-lhe reboliça e isso sacia o
meu olhar deambulante que recusa sucumbir perante mais uma noite régia, por
entender que a indiferença faz com que a mesma se esmoreça e aí não terei
companhia contemplativa que me possa instigar a mirabolantes reflexões. Tão pertinente que a mesma é pois parece
conseguir decifrar as minhas carências, não tem como não a apreciar; desde a
límpida gota ao mais grotesco esfrio, desde a solitária afronta até ao mais
denso desafio, desde o início até ao fim… até ao rescaldo da mesma, o silêncio
que a imortaliza. Descomponho-me e cada canto a que me encosto é uma distinta forma
de a contemplar.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Não seria feliz, sem ti.
Não seria feliz sem ti,
Talvez nem saberia o que era a felicidade,
Nem saberia de mim,
Ou pelo menos de metade;
E no meio dos carinhos e abraços, perdemos-nos
Em beijos e sonhos fatais
E apercebemo-nos
Que amar nunca é demais;
Mas nos dias em que aparece a vontade
De consumir este sentimento,
Eis que nasce a saudade
E destrói o momento!
sábado, 16 de novembro de 2013
Denomino-me servo, perante irmãos.
Saudades, do recanto onde
assentando os meus joelhos debruço-me perante uma fé tremenda, para saudar
aquele de quem mais me aproximo a cada dia que passo, para dizimar os pecados
que confesso e para restituir a serenidade que apruma os meus pensamentos, lembranças
subsistentes de quem acredita na verticalidade do ser que venera, na sapiência dos
escritos que perpetuam e no vigor dos cânticos que ecoam. Entornando o olhar
sobre as mãos dadas e atadas, a uma rendição suprema, sustenho a ousadia de me
declarar e consinto que me extraviem com palavras recatadas que aglomeradas possuem
algo que pretendo encontrar, um ensinamento mais dócil que as vivências que
tremelicam o meu ser, para que o tempo que me concedem seja mais fértil e menos
nefasto, para que não viva em vão. Antevendo percalços deixo-me ficar mais um
pouco, numa devoção astuta que penso não resultar, sem me queixar do tempo que
emprego e sabendo que cá voltarei cambaleando, jorrando lágrimas e desaforos, versando
pensamentos ateus e temendo que se cá não vier faleça. Sejamos merecedores do silêncio que
ostentamos, sejamos compreensores do mesmo para que a fé seja um sustento e
nunca um lamento das nossas ações que com espaço e tempo revelam-se
imponderadas, se não formos ponderados e fieis assíduos o silêncio será o mote
para o fim.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Sinto-me efémore
Nunca me senti efémero, não tanto quanto hoje, talvez por transportar uma certa prepotência em ascensão que ridicularizava qualquer sentido que a vida pudesse conter ou transparecer, por acreditar que os meus passos eram tão marcantes quanto o batimento do meu coração e tão cravados quanto as conquistas do mesmo. Contudo aprendi que a nossa sobeja certeza é tão certa quanto os caminhos que percorremos, aqueles que não entendemos, afrontando assim as nossas reflexões dolorosas que não foram tão produtivas quanto esperávamos e foram tão vazias quanto o teor das garrafas, que evaporou, e quanto a labareda no tabaco, que sumiu. Nunca me senti efémero, não tanto quanto hoje, mesmo sabendo que tenho razão naqueles que entendo como pontos de vista e outros poderão entender como pontos de partida para uma loucura plena e consentida. Agora que sinto-me efémero, esperando que não o sinta mais do que hoje, posso dizer que não gosto…. “e até aposto que não gosto de ninguém”.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Há momentos e momentos...
Existe momentos na vida em que os dias e as noites não passam, apenas desfilam, deixam um rasto cravado e amargurado nos suspiros que damos e aproveitamos para suster o fôlego e dar um mergulho no escuro. Confrontamos o tempo com o tédio e perdemos, perdemos por culpa própria e ao olharmos o espelho pressentimos a nossa indolência de uma forma tão cruel que bastarão segundos apenas para nos fartarmos do que vemos. Existem estes momentos e têm de ser vividos, durante o dia havemos de ludibriar o sol, à noite saberemos quantas estrelas nos cercam e no final de tudo nem lembraremos mais esse tempo vagaroso, porque não nos convém.
Sonhei com o incerto e acordei deserto
Hoje sonhei contigo, há quanto tempo não te via, há quanto tempo não pressentia
o quão gostava de ti, o quanto gostávamos um do outro. Um sonho tão fugaz
quanto aqueles que aspirávamos, tão real como os momentos em que nos desdobrávamos
por um simples beijo ou por um complexo carinho, com uma serenidade eloquente
que nos deixava petrificados. Não sei de onde surgiu esta minha necessidade de
te reencontrar em meus sonhos, não sei mas gostei de te reencontrar, não
sabendo também se irias gostar mas sabendo que foi mais uma das noites em que
perdi a descompostura e adorei ter cometido mais esta, pequena, loucura.
Temendo o excesso de remorsos despertei, temendo cair em tentação ponderei
continuar dormindo, ponderei continuar sonhando com algo que esqueci entretanto
e rendi-me ao nascer do sol para que a manhã, fria, fizesse-me esquecer aquilo
que foi nosso um dia, muito antes de me ter apercebido das injustiças da vida.
Quero que saibas que celebrei a tua vinda em lágrimas e que o meu coração escondeu-se,
inquietado, para que o choro fosse o único modo de mostrar-te que estou vivo e
que os sentimentos nunca morreram apesar de nem sempre terem estado todos eles
do meu lado. Sonhei com a incerteza, acordei como sempre no deserto.
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